A luz de Newton
A luz de Newton
«O Vermelho fechou o livro com violência. E encarou severamente o Amarelo. As outras cores, em volta, suspiraram. Adivinhava?se um momento desconfortável. Direi mais: um momento de tensão. Direi mais: um momento de combate.
O Amarelinho tentou cruzar as pernas para tornar a posição mais consistente, mas não tinha joelhos para dobrar. As cores olhavam para o Vermelho, à espera. Ele fora eleito para as representar. E o Vermelho estava mesmo muito vermelho sob o efeito da cólera:- Estamos à espera de uma explicação.
- Explicação… — repetiu o Amarelinho, para fazer tempo. — Explicação de quê?
As cores pigarrearam e mexeram-se. Começaram até a segredar. Mas o Vermelho impôs a sua autoridade.
- Não te faças de parvo. Sabes bem.
Tirou de um saco um livro muito fino e exibiu?o a todos, como vira fazer num filme com uma prova em tribunal.
- A Luz de Newton, primeira edição. As sete cores do arco?íris: somos nós.
- Sim, somos todas nós — disse Liliana.
- E ocupamos — afirmou o Verde — praticamente o mesmo espaço cada uma.»
Seria bom que o Prémio Camões, que em 2015 lhe foi atribuído, contribuísse para chamar a atenção para a obra de Hélia Correia, autora avessa a holofotes e uma das grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea.
Hélia Correia (1949) é uma escritora portuguesa contemporânea. Licenciou-se em Filologia Românica e é professora de Português do Ensino Secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético.
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