A minha andorinha
A minha andorinha
Não há nada pior que um ajuntamento espontâneo de populares. Juntam-se muito neste país. É para ver quem morreu ou para espancar um desgraçado que matou os filhos e as galinhas. É para jogar à vermelhinha ou para comprar Lacostes da treta que, em vez de um crocodilo, têm um sardão das Berlengas.
À mínima desculpa os populares, que estão maçados e anseiam distracção, juntam-se. Deveria ser proibido, fora de feiras e romarias. Bem vistas as coisas, também deveriam ser proibidas as feiras e as romarias, porque já está demonstrado que encorajam o contacto entre as pessoas. […]
Mas não divaguemos porque há muito para desbastar. Por exemplo, aqueles pedintes que, em vez de apresentar oralmente o seu apelo, no estilo tradicional, produzem um extenso texto miserabilista, escrito em português ilegível, a dizer que já estiveram melhor e que praticamente estão como hão-de ir.
Aquelas senhoras que sabem os nomes de todos os bolos e fazem gala disso. Em vez de apontar com o dedo, para a montra, como os mortais comuns que têm mais que fazer, começam a recitar as suas cabalas maçónicas.
«Um jesuíta, uma margarida, um charleston, um torno-mecânico-de-seis-bicos, um berimbau, um gonzaguinha e dois pastéis de nata.» Miguel Esteves Cardoso
Miguel Esteves Cardoso (n. 1955) é escritor, cronista e uma figura influente da cultura portuguesa contemporânea. Com formação em Economia e uma longa carreira no jornalismo e na comunicação, tornou-se conhecido pela sua voz singular, capaz de unir humor, lucidez e uma observação precisa do quotidiano. A sua obra — que inclui livros como A Causa das Coisas, Os Meus Problemas e O Amor é Fodido — evoluiu ao longo das décadas para uma escrita mais íntima e depurada, onde a reflexão sobre o amor e o tempo assume um lugar central.
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