Acidentes
Acidentes
Livro de poesia publicado oito anos depois de A Terceira Miséria. Reúne trinta e cinco poemas da autora.
«Li o desencanto e o desânimo de Hélia Correia em «Acidentes» acompanhando-a no que pude: sublinhando o escorraçar das palavras, obra de homens que as submetem ao risível.
«Deixai, deixai cair uma palavra,/e outra, e outra,/os ossos do banquete,/para que me roje e as apanhe com a boca,/(...)» e, em «Distracção», o desbaste contínuo e assassino da Natureza em consonância com a ideia «(...) dessa coisa a que chamam utopia/porque não tem lugar na natureza,/e que, por falta de raiz, não dura/muito mais que um insecto luminoso.(...)»; e Hélia Correia volta novamente à palavra para nos avisar que a poesia tem longo trato (viciante) com as metáforas, tornando os lobos na imagem-lugar-comum do mal.
Mas «(...) Eles matarão/somente porque existe um pensamento,/como um tumor,/ naquilo que os constitui. (...)»; a desconfiança na ciência cria uma atitude poética de fusão para com ela, visto que «passado o espanto fundador» tudo é possível porque os Mestres, a humanidade, domesticou tudo, desenhou tudo nos mapas, trouxe tudo para casa e desenhou igualmente o extermínio.
Como se desvendou tudo haverá então espaço para a poesia? «Vindo o momento, tudo aquilo que separou/ciência e poesia deixará/de existir sobre a terra.» O mistério da respiração, pela mão de Hélia Correia, é desde sempre um mistério.
Os pulmões que pulsam a vida, a transformação do ar no corpo, não é explicável pelo movimento das células e do sangue. Só pela poesia se consegue sentir esse pulsar, essa transformação vital.»
in Deriva das Palavras: «Acidentes», de Hélia Correia
Hélia Correia (1949) é uma escritora portuguesa contemporânea. Licenciou-se em Filologia Românica e é professora de Português do Ensino Secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético.
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