Bastardia
Bastardia
«Moisés sentia a estranha comoção que transtornava os tios. Na cozinha, as mulheres retomavam o silêncio com que, a princípio, o tinham recebido. E as conversas na cavalariça, sendo os dias tão curtos, resultavam mais apressadas.
Pouco conseguia que os fregueses falassem sobre o mar. No entanto, ele já se acostumara a servir-se dos próprios pensamentos. Imaginava o dia do encontro com aquele grande azul que se estendia, semelhante a um prado que florisse. A obsessão tomara conta dele como alguém que o tivesse sequestrado.
Tudo o que via e ouvia era filtrado, enquadrado na sua perspectiva. Confiava em que os tios o levariam, tarde ou cedo, à Vieira. Não pensava que, com aquela espécie de trabalho, não desfrutavam dos prazeres do verão, quando abundavam os pedidos de cavalos e de carros abertos.»
Seria bom que o Prémio Camões, que em 2015 lhe foi atribuído, contribuísse para chamar a atenção para a obra de Hélia Correia, autora avessa a holofotes e uma das grandes vozes da literatura portuguesa contemporânea.
Hélia Correia (1949) é uma escritora portuguesa contemporânea. Licenciou-se em Filologia Românica e é professora de Português do Ensino Secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético.
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