O manuscrito na garrafa
O manuscrito na garrafa
Relatório da Direcção dos Serviços de Censura, n.º 6.664, 10-10-1960: “Trata-se de um livro inconveniente, sob os aspectos político, social e moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, 70, 73, 75, 77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141 e 149, revelam a sua índole. Entendo que não deva ser autorizado a circular no País.”
A dedicatória do livro a Adelino Tavares da Silva, Papiniano Carlos (1918 – 2012) e Urbano Tavares Rodrigues (1923 – 2013), jornalistas e escritores filiados no Partido Comunista Português, desenvolvendo intensa actividade clandestina contra o regime de António de Oliveira Salazar, poderá ter feito soar o alarme e alertado os censores para um eventual “conteúdo subversivo” da obra.
Distribuído para leitura a 7 de Outubro, três dias foram suficientes para se produzir o relatório e outros dois dias para o veredicto dos censores: “Proibido”. O lápis azul foi implacável, sem apelo nem agravo.
“Livro inconveniente” porque
- (i) com pensamentos e palavras sacrílegas em relação a “um Deus sem rosto, terrivelmente justiceiro, mas pactuante com a animalidade de cada um”. “E Deus – se há Deus, ou o que quer que seja – a divertir-se à grande com os nosso pequenos comércios, olhando do Olimpo estes seres miseráveis (…). Que náuseas isso me dá!”;
- (ii) contra a moral e os bons costumes com descrição de cenas de nudismo, “Na solidão da duna, Carlos ficou a vê-la despir-se, peça a peça…”;
- (iii) com referências explícitas a partes do corpo e à sexualidade, “Sentiu que o tomava um fiozinho de emoção e deu-lhe umas palmadas nas nádegas, para disfarçar. (…) O jogo dos sinais prosseguia”. “E, de novo, o quarto se encheu de rumores luminosos, de gemidos, de palavras ciciadas…”. “Lentamente, como quem busca o caminho esquecido, a boca de Carlos colou-se à pele lisa e morena, em beijos longos, sorvidos, violentos”;
- (iv) com posições políticas e reuniões de protesto, “Um grupo de democratas defendia a candidatura de um oficial do activo, servidor confesso da Situação, como um processo de abrir brecha no regime. O grosso da Oposição discordava, queria um candidato que desse seguras garantias de fidelidade à República e aos ideais democráticos”, “A eleição fora um desapontamento: os números oficiais tornados públicos davam a vitória ao candidato governamental por uma esmagadora maioria de votos”;
- (v) com degradação social e moral com mesas de jogos, bebidas…
Enfim, um acumular de referências a actos proibidos e ou censuráveis (?!) por uma sociedade dos bons costumes, pela moral ou opinião social.
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